sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Um olhar carente de atenção


Ninguém gosta de ficar horas num terminal esperando o ônibus, né? Ainda mais quando se está cansada, gripada, com frio e dor de cabeça. Uma vontade imensa de chegar em casa e ver o último capítulo de uma novela que parece ter hipnotizado o país inteiro. Foi quando vi um senhor passar. Carregando nos ombros uma mala que parecia muito pesada e nas mãos outra sacola, talvez um pouco mais leve. Passou por mim e logo depois voltou, com semblante feliz carregando uma espiga de milho que provavelmente teria comprado naquele quiosque do terminal [Depois ele me contou que uma senhora pagou pra ele. Que atitude feliz!]. Aproximou-se do banco onde eu estava sentada. Eu fui logo tirando a minha bolsa do espaço onde ele queria se acomodar. Fiz pra ser gentil, mas no fundo uma dose de preconceito já me teria feito pensar que seria um alguém a fim de me roubar. É triste ter que agir assim só com o intuito de me proteger e sem querer poder ofender alguém. Ele foi logo abrindo um sorriso e perguntando onde ficava o banheiro. Eu logo fiquei mais tranquila e indiquei a direção. Ele guardou a espiga de milho na sacola que aparentemente estaria mais leve e seguiu. Logo voltou e sentou-se ao meu lado. Me dei oportunidade de fazer o tempo de espera pelo ônibus ser menor e conversar com aquele senhor de cabelos brancos. Ele contou que estava indo pra São Paulo e que havia conseguido passagem para o domingo. E ainda era sexta à noite. Falou de como seria ruim dormir nos bancos duros e que sua coluna iria doer bastante. Contou que uma senhora quis ajudá-lo oferecendo abrigo, mas não poderia porque o esposo estava viajando e não poderia recebê-lo sozinha. Quis chamá-lo pra ficar em minha casa. Mas o preconceito falou mais alto outra vez. E fui logo mudando de assunto. Me falou também de como era caro se alimentar em restaurantes e que não conseguiu nenhum desconto. Me contou sobre sua vida, religião, da esposa falecida e de tudo que estava por resolver em São Paulo. Ele sim não teve preconceitos comigo. Foi logo contando da vida e me confiando sua história. Nem me lembrava a quanto tempo já estava no terminal. A conversa com o Senhorzinho estava tão agradável que eu poderia ficar ali por horas.
Até que o ônibus que eu tanto esperava chegou e eu tive que partir. Toquei em seu ombro e disse:
- Tenho que ir. Fique com Deus.
Ele, gentilmente, respondeu:
-Vá minha filha.





Ainda pude observá-lo durante alguns segundos pela janela. Meu coração chorou com o arrependimento de não ter feito nada por aquele homem. Só um olhar, poucas palavras e atenção.
Mas uma coisa eu percebi, seu olhar carecia de atenção. Acho que fiz algo por ele. Mas sinto que foi pouco.
Queria voltar lá no dia seguinte, encontrar aquele homem, conversar por mais algumas horas e ajudá-lo até a hora de sua viagem. Talvez nada disso aconteça.
Mas nunca me esquecerei do Senhorzinho. De seus cabelos brancos, pele negra, rosto enrugado e olhar carente de atenção.
Lembrarei deste homem todas as vezes em que estiver no terminal. De sua fisionomia e jeito simples.
De alguma forma, ele me revelou a simplicidade de Deus. E me fez repensar sobre o que tenho feito para acolher as pessoas me esquivando dos preconceitos. Sobre o que tenho feito para ajudar quem precisa.
Ele me ensinou mais que qualquer aula na faculdade. As maiores lições da vida são sempre assim, com as pessoas mais simples. Com quem se permite não esconder nada e mostra-se inteiro em sua pequenez.
Obrigada pela vida do Senhorzinho, meu Deus. Peço que olhe pela vida daquele homem e nunca o desampare. Amém.
Hora de dormir. Lembrando do Senhorzinho. Com um aperto no peito.
Apaguem as luzes, mas deixem acesas as estrelas. Acho que o Senhorzinho tem medo de escuro.
14, novembro 2012

Uma prece: Que tenhamos sempre um olhar atento aos que precisam de atenção. Um coração acolhedor. Palavras e atitudes que transbordem amor. Amém!




Cores, flores e amores 'procês'.
Bjin's, fiquem com Deus.

[Imagem Google]



9 comentários:

  1. Quantas vezes isso já aconteceu e eu não fiz nada...
    Lindo texto, triste realidade.

    Felipe

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  2. Às vezes a gente pensa que ajudar é somente fazer 'grandes' coisas. Tanta gente ao nosso redor precisando apenas de atenção, de alguém que as escute e dê uma palavra. É preciso ser mais atendo aos detalhes pequenos, que escondem-se nos momentos mais 'comuns' do nosso dia-a-dia: é aí que 'grandes pequenas coisas' podem ser realizadas! Acho que é isso! ^^

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  3. Isso é verdade, as vezes as gente olha as aparecias e nn liga pra o que o proximo esta sentindo ou precisando. Deeus fala, ame o proximo como a se mesmo, e a gente ainda tem preconceitos, temos qe pensa e repensa em nosso atos.! :s

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    1. A gente precisa ser mais atento às necessidades do outro, num é não? O importante é reconhecer isso e fazer o que nos cabe. Bjooos, Kel.

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  4. Nossa! Que texto hein Dona Júlia!
    Fiquei curiosa pra saber o destino desse Senhor. Como ele deve está agora =/ Espero que ele encontre pessoas que ajudem a ele, que dê oportunidades e que saibam ouvi-lo.
    Tocou profundamente em mim o que contas.
    Parando bem pra pensar, atenção é algo tão simples, mas a triste realidade do preconceito faz com que nos afastemos do próximo.

    Parabéns Júlia Menezes pelo blog. Super gostei. Irei dá uma espiada sempre que puder ;) vlw

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    1. Obrigada pelo comentário! Você só esqueceu de se identificar! :/
      Bjin's

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Júlia, que lindo. Nem sabia que tinhas blog. Meus parabéns! Muito bem escrito. E particularmente, adorei a mensagem.

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    1. Obrigada pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado! Pena que não se identificou! :/ Abraço!

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